Mostrando postagens com marcador Flávio Gikovate. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Flávio Gikovate. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As mulheres são mesmo um mistério


Tenho pensado cada vez mais acerca da condição feminina. Trata-se de um dos poucos temas da psicologia das pessoas normais sobre o qual nunca escrevi um texto longo – e estou me preparando para fazê-lo. Tenho lido muito a respeito e tenho visto como é pobre a visão que, homens e mulheres, têm de si mesmos – principalmente as mulheres. A dificuldade de homens entenderem as mulheres e vice-versa é mais fácil de aceitar porque temos enorme dificuldade de lidar com diferenças.

As diferenças sempre provocam tendência a comparações. O curioso nas comparações entre homens e mulheres é que quase todos os homens se sentem por baixo, inferiores, a elas. As mulheres variam mais quanto a este aspecto e pelo menos uma boa metade acha a condição feminina mais favorável. É claro que aquele que, ao se comparar, se sentir por baixo, desenvolverá a hostilidade agressiva própria da inveja. O papel da inveja na associação entre o sexo e a agressividade é muito relevante e isso é bem claro para mim já há uns 20 anos.

A nossa época é difícil de ser entendida e as generalizações são perigosíssimas. Existem pessoas pertencentes a pelo menos 3 gerações distintas que se sucederam ao longo dos últimos 30 anos. Existem, por exemplo, os homens que, tendo mais de 35-40 anos de idade, continuam a manifestar todos os comportamentos tradicionais de machismo agressivo ou de reverência intimidada diante das mulheres, especialmente as que lhes despertam o desejo sexual. Existem os homens que hoje estão entre 20 e 35 anos que estão totalmente perplexos e perdidos e não sabem muito bem como se posicionar. Tendem a ver as mulheres de forma mais igualitária, respeitando-as profissionalmente; porém, ainda invejam o poder sensual delas e isso determina duas tendências: uma delas é a de continuar a agir, ainda que de forma disfarçada, da maneira mais tradicional que escrevi a respeito dos mais velhos; a outra maneira é tentar imitar o modo de ser delas, tentando despertar o desejo delas por meio do aprimoramento de suas aptidões físicas; são os que freqüentam as academias, usam cremes, gastam bastante em roupas e outros adornos.

O terceiro grupo é o dos jovens de menos de 20 anos. Estes estão numa boa. Vêem as mulheres reais apenas como parceiras românticas e se interessam sexualmente por elas apenas quando estão namorando. Quando estão sozinhos, se valem das facilidades derivadas do farto material pornográfico à disposição. Não freqüentam as prostitutas e não têm muito interesse no sexo casual. Preferem o sexo virtual ou o sexo no contexto amoroso. Não são paqueradores e não se sentem por baixo pelo fato de não provocarem o desejo das mulheres porque estão sempre muito satisfeitos sexualmente graças aos seus “programas virtuais”. Costumam ser moços serenos e até mesmo um pouco preguiçosos, pois não sentem que precisam fazer muita força ou ter muito sucesso para terem acesso às moças que, não sendo assediadas, passaram a assediá-los – ou a tentar trocar carícias com outras moças.

E as mulheres? Não tenho a impressão de que é possível agrupá-las em 3 tipos – e seus subgrupos – como fiz com os homens. Parecem portadoras de uma multiplicidade que nem elas entendem. Os homens as invejam porque consideram que elas teriam uma enorme facilidade para o sexo casual já que estão sempre sendo paqueradas por alguém (o que não acontece com eles, que têm que ir atrás). A grande maioria delas não se interessa por isso apesar de adorarem se exibir e atrair olhares. Parece que o prazer exibicionista é suficiente para elas, o que não faz o menor sentido para os homens.

Outras têm medo de sua exuberância sexual e tratam de se deformar: engordam demais justamente na mocidade, descuidam de outros elementos de sua aparência. Outras se queixam da falta de orgasmo e a grande maioria nem percebe que o orgasmo não lhes provoca a saciedade parecida com a que acontece com a ejaculação masculina. Buscam mesmo é o sexo associado ao amor e fazem, cada vez mais, o discurso pela igualdade que pede o sexo sem compromisso. Isso justamente quando os homens jovens estão se desinteressando disso. Mulheres homossexuais, diferentemente dos homens, preferem relações estáveis e duradouras. Mulheres heterossexuais sozinhas buscam parceiros na noite e sempre se decepcionam quando não há continuidade. Apesar disso, continuam dizendo que é legal este jogo de sedução e paquera. Muitas são sinceras e se declaram desinteressadas disso e claramente buscando um parceiro fixo. Outras mulheres se divertem de verdade com o sexo casual e as suas amigas as invejam e não sabem porque não são como elas. Umas gostam de tomar a iniciativa na paquera enquanto que outras acham isso terrível.

Bem, basta de confusão por hora. Gostaria de deixar claro que isso é apenas o início da conversa porque as mulheres parecem ser portadoras de uma multiplicidade que surpreende a elas mesmas. A pergunta de Freud "-Afinal, o que querem as mulheres?" parece que não será respondida facilmente; e talvez seja mais difícil para elas dar a resposta do que para um observador masculino.

Flávio Gikovate

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aprendendo a lidar com o medo da felicidade


O amor, que era um prazer negativo, ganha um enorme ingrediente positivo relacionado ao fato da pessoa formar o elo com alguém que também seja o seu melhor amigo. Se este parceiro for também aquele com quem se têm as relações sexuais (agora sim dignas deste nome), então estamos diante daquilo que tenho chamado de +amor, ou seja, aconchego mais amizade e mais sexo! Atenuamos o desamparo, trocamos carícias eróticas e somos íntimos da mesma pessoa. É o máximo que se pode pretender de um relacionamento afetivo.

É uma pena que seja um encontro tão incomum. Não é à toa, pois ele depende de um grande desenvolvimento emocional, moral e também de uma grande coragem. Isso porque somos portadores de mais um problema enorme que é o seguinte: temos muito medo da felicidade. Sempre que nos aproximamos desse estado de plenitude, no qual sentimos que nada nos falta – ainda que isso seja uma sensação que descreve um momento ou um breve período – nos apavoramos porque sentimos que algo de terrível está para nos acontecer.

Todo o pensamento supersticioso, tão profundamente arraigado em nossa cultura, tem a ver com o medo da felicidade. Acontecimentos positivos nos levam a praticar rituais de proteção contra as eventuais desgraças que parecem estar prestes a acontecer. Como a felicidade sentimental é o maior sonho da maioria das pessoas também é a mais forte causa do medo da felicidade. Penso também que o fenômeno amoroso tem uma relação direta e imediata com o medo da felicidade, porque ambos derivam da dramática experiência do nascimento. Até um determinado momento, estávamos vivendo em plena harmonia no útero materno e, num instante seguinte, fomos dramaticamente expulsos de lá. Se o amor provoca sensações parecidas com a plenitude uterina, parece que, ao conseguirmos realizá-lo, seremos vítimas de uma nova ruptura, de um novo “big bang”.

Felizmente isso não é verdadeiro. Trata-se de uma espécie de condicionamento, uma fobia que se estabeleceu a partir do trauma do nascimento. A verdade é que a felicidade não aumenta em nada as chances de que coisas ruins nos aconteçam. Mas não acreditamos nisso. E aí, o que fazemos? Fugimos ativamente da felicidade buscando parceiros menos adequados e que não irão nos completar inteiramente. Essa é apenas uma das muitas manifestações destrutivas que têm que ser combatidas por aqueles que pretendem avançar na direção de uma ótima qualidade de vida. Assim sendo, tentar domesticar o medo da felicidade e as tendências autodestrutivas que derivam dele é o último e dificílimo obstáculo a ser vencido por aqueles que querem conhecer de perto a paz de espírito e as alegrias que caracterizam a felicidade possível.

Flávio Gikovate

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Aprendendo a curtir os verdadeiros prazeres positivos


OS PRAZERES DO CORPO - Vive bem quem consegue superar mais ou menos rapidamente as dores inexoráveis da nossa condição e que tem os meios necessários para viver próximo do ponto de equilíbrio, usufruindo de um bem-estar bastante gratificante. Esses são ingredientes essenciais à felicidade. Ela seria incompleta e desinteressante se fosse composta apenas disso. A ela se agregam os prazeres positivos, aqueles que não dependem da existência prévia de nenhum tipo de desconforto ou dor.

O exemplo mais típico de um prazer positivo é a excitação sexual: saímos do zero, do bem-estar, para um estado de inquietação sentido como extraordinariamente agradável. Sentimos a excitação e somos conscientes disso. Quando ela é muito intensa pode até mesmo interromper o processo de pensamento, determinando um estado de êxtase efêmero, mas suficientemente gratificante para justificar a busca insistente do prazer erótico por parte de quase todo o mundo.

A excitação sexual se manifesta a partir da estimulação táctil das zonas erógenas tanto quando elas são praticadas individualmente como também quando elas derivam de trocas de carícias entre duas pessoas. Nos homens, a excitação pode depender também de estímulos visuais, sem que haja nenhum tipo de contato. Os objetos de desejo sexual são de natureza muito diferente dos objetos amorosos, pois são múltiplos e indiscriminados; e nem sempre estão em sintonia com os sentimentos amorosos. O objeto do amor é muito específico, de modo que penso que só neste caso cabe falar em efetiva relação. As trocas de carícias eróticas são chamadas de relações sexuais, mas não sei se chegam a ser mesmo “relações” – isso quando acontecem fora do envolvimento amoroso.

A questão sexual é extraordinariamente complexa em nossa espécie por diversos motivos. Como as “relações sexuais” podem determinar a reprodução, sempre estiveram fortemente regulamentadas. Sempre foram mal vistas por certas correntes religiosas por serem fonte de grandes prazeres. Além disso, contém mais um ingrediente, este sim difícil de ser equacionado. Estou me referindo à vaidade, ao prazer erótico relacionado com o exibicionismo, com o atrair olhares de admiração e eventualmente de desejo, com o ato de se destacar. O destaque pode acontecer por força da beleza ou outras competências físicas extraordinárias. Ele pode se manifestar também em outras áreas, como nas realizações profissionais, artísticas ou intelectuais. Atraem a admiração e despertam uma excitação muito grande na pessoa que consegue se sobressair.

Penso na vaidade como o mais complicado elemento da nossa subjetividade. Ela é responsável pela busca de notoriedade, de chamar a atenção, da pessoa se sobrepor às outras. Acontece que aquelas que não conseguem igual destaque – e que são a maioria – se sentem diminuídas, incomodadas, invejosas e revoltadas. O destaque implica sempre na presença de propriedades incomuns, privilégio de uma minoria. Constituem-se assim as “felicidades aristocráticas”, relacionadas com a beleza física, com dotes atléticos espetaculares, com uma inteligência privilegiada, algum dote artístico valorizado ou mesmo a posse de muitos bens materiais. Elas podem fazer bem aos que as possuem, mas desequilibram as sociedades, gerando ondas de hostilidade invejosa insolúveis.

O sexo é prazer físico positivo por excelência e, por meio da vaidade, pode contaminar também os prazeres intelectuais. Existem outros prazeres físicos e que são de natureza mais democrática. Talvez devêssemos, como sociedade e como indivíduos, nos ater mais a eles. Podemos nos deleitar com a dança, com os esportes individuais por meio dos quais estamos apenas nos tornando cada vez mais bem condicionados – sem expectativa competitiva alguma. Ficamos felizes ao conseguirmos chegar ao peso desejado, ao sentirmos nosso corpo rendendo o máximo. Essas são “felicidades democráticas”, uma vez que estão aí à disposição de todos aqueles que se disciplinarem e dedicarem algumas horas da semana ao cultivo do corpo.

OS PRAZERES INTELECTUAIS - Graças ao “software” sofisticado que conseguimos construir, fomos capazes de desenvolver prazeres intelectuais autônomos – apesar de que eles também estão contaminados com a vaidade, elemento erótico por excelência. Aprender é um prazer positivo que nos acompanha desde tenra infância e que deveria ser cultivado sempre. Aprender é prazer profundamente democrático, já que aí há espaço para que todos evoluam. Perceber que conseguimos apreciar melhor as artes, que podemos curtir cada vez mais e melhor os bons filmes, que as conversas sofisticadas com os amigos queridos são uma delícia e que estamos sendo capazes de evoluir emocional e moralmente talvez sejam nossos maiores prazeres intelectuais, certamente os únicos comparáveis com os prazeres do sexo. Os genuínos prazeres intelectuais independem da vaidade, pois a boa conversa e a emoção ao ouvir uma música não necessitam de observadores – essenciais no exibicionismo.

Os avanços intelectuais e morais nos levam a ser criaturas disciplinadas e costumam trazer grande satisfação íntima. O que chamamos de auto-estima é relacionado com isso, uma vez que podemos fazer um juízo cada vez melhor de nós mesmos. Eles vêm acompanhados de melhores resultados práticos, o que reforça a vaidade. Os avanços profissionais se tornam quase que inevitáveis.

Um outro avanço fundamental também ocorre e esse tem a ver com o aspecto sentimental. Uma boa auto-estima altera o foco da admiração, que passa a se dirigir na direção das pessoas com quem as afinidades predominam. Passamos a nos encantar por pessoas escolhidas segundo os mesmos critérios que os amigos, ou seja, aqueles com quem temos o enorme prazer intelectual derivado de conversas intensas e sinceras. Amigos são criaturas confiáveis. Amigos determinam prazeres positivos porque não precisamos nos sentir desamparados ou tristes para que apreciemos muito a companhia deles. Ao estabelecermos o elo relacionado ao aconchego sentimental com um parceiro que também seja o nosso melhor amigo, estaremos nos aproximando do melhor dos mundos.

Flávio Gikovate

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma pausa para o amor.


Antes de tratarmos dos prazeres positivos, penso que cabe um destaque especial para o amor, fonte das maiores confusões e mal entendidos. Vou tentar ser claro e rigoroso na defesa do meu ponto de vista. Penso que o amor é o sentimento que temos pela pessoa cuja presença nos provoca a sensação de paz e aconchego que tanto necessitamos. Trata-se, pois, de um prazer negativo porque alivia a dor que acompanha a sensação de desamparo que nos persegue desde o instante em que nascemos. Entendido o fenômeno desta forma, fica claro que nosso primeiro objeto de amor é a mãe e que todos os outros, ao longo da vida adulta, são substitutos dela. Entendo o amor como um sentimento que deriva do trauma do nascimento, momento da “expulsão do paraíso” e fim da harmonia uterina. O desamparo deriva daí e faz com que nos sintamos incompletos quando estamos sozinhos. Buscamos refazer o bem-estar perdido por meio de alianças com outras pessoas. O caráter quase físico desta aliança corresponde ao amor. Logo mais tratarei de outros aspectos relacionados com os elos adultos. De todo o modo, que fique claro desde já que o sexo não tem nada a ver com o amor – o que não quer dizer que não possa se acoplar a ele. O sexo é excitação derivada da estimulação, por parte da criança, de suas zonas erógenas. O amor tem objeto – a mãe – ao passo que o sexo é pessoal – a criança toca a si mesma.

Flávio Gikovate

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Será que é preciso amar a si mesmo antes de amar aos outros?


Sempre me surpreendo ao ouvir as pessoas falarem, com convicção, frases conhecidas, tidas como verdades, sobre as quais pouco refletiram. Elas correspondem às crenças, pontos de vista que herdamos daqueles que nos antecederam. Temos o dever de repensar tudo, uma vez que novos conhecimentos podem criar maneiras mais sofisticadas de encarar os temas que tanto nos interessam.

Esta é uma destas frases: “se eu não conseguir me amar primeiro, não serei capaz de amar ninguém”. Isso é dito e pensado a propósito da possibilidade de estabelecermos um relacionamento íntimo, estável e de boa qualidade. Não se está falando em termos genéricos, de modo que ela não está diretamente ligada ao ditame bíblico de que devemos “amar ao próximo como a nós mesmos”.

O “próximo” do texto bíblico é qualquer pessoa com a qual estabelecemos algum tipo de relação e não aquele ser especial com quem queremos estabelecer um relacionamento íntimo, de preferência estável e definitivo. Além disso, penso que a idéia religiosa diz respeito ao tratamento e aos direitos, ou seja, de que devemos considerar os outros como portadores de direitos iguais àqueles que atribuímos a nós.

A forma como tenho pensado acerca do amor não nos permite falar em amor por si mesmo. Isso porque ele acontece sempre em condições interpessoais. O amor corresponde ao sentimento que temos por aquela pessoa cuja presença provoca em nós a adorável sensação de paz e aconchego. A primeira manifestação desse sentimento corresponde ao que acontece entre mãe e filho, talvez ainda durante a vida intra-uterina, mas, certamente, a partir do nascimento: a criança, desamparada e ameaçada por desconfortos de todo o tipo, se sente bem e aconchegada pela presença física da mãe e a ama; esta, por sua vez, sente enorme prazer em estar com seu bebê no colo e sente por ele enorme amor justamente porque ela também se sente aconchegada por ele.

O primeiro sentimento interpessoal é o de amor. É claro que a criança, frustrada pela ausência da mãe, também pode ficar revoltada e chorar muito por se sentir abandonada. Talvez o segundo sentimento seja mesmo de raiva, que também é interpessoal (depende de um agressor externo). À medida que os meses se passam e a criança vai se diferenciando, ela passa a pesquisar o mundo que a cerca, inclusive a si mesma. Ao tocar certas partes do seu corpo, experimenta uma sensação muito agradável de excitação. Trata-se de excitação sexual, esta sim pessoal e auto-erótica.

Quando se pensa no sexo e amor como parte do mesmo processo, o que não é o meu ponto de vista, pode-se pensar que exista algum tipo de afeição da criança (e depois do adulto) por si mesmo. Acontece que com a separação entre esses dois fenômenos (sendo fato que o amor acontece antes do sexo), podemos pensar no sexo como um fenômeno pessoal, mas não no amor como tal. Assim, existe auto-erotismo, mas não existe amor por si mesmo: o amor pede objeto e o primeiro objeto é nossa mãe.

Estas considerações são de natureza mais teórica. Vamos agora à prática, na qual constatamos que a grande maioria das pessoas não tem um bom juízo de si mesma. Isso significa que elas não têm boa auto-estima, o que costuma ser tratado como sinônimo de ausência de amor por si mesmas. Estima é uma palavra que pode estar associada a amor, mas também significa valor; penso mais neste segundo aspecto, de modo que baixa auto-estima significa que não estou satisfeito com o meu jeito de ser. Eu sou o juiz e também aquele que é avaliado, no caso, de forma negativa. Se isso, de fato, implicar em incapacidade para amar, podemos afirmar que o amor não existe!

O que acontece não é nada disso. Aquele que tem de si um juízo negativo costuma se interessar por alguém que seja o seu oposto. Isso sim é a regra do que acontece na realidade: nos encantamos pelos que são o oposto de nós, já que não gostamos nem um pouco do nosso jeito de ser. As pessoas que acompanham meu trabalho sabem que considero este tipo de aliança um tanto precária e, hoje em dia, com tendência a uma vida curta.

Podemos dizer que quem não tem boa auto-estima (expressão melhor do que “aquele que não se ama”) tende a amar seu oposto. A qualidade deste tipo de relacionamento é muito duvidosa, de modo que, nesse sentido, podemos dizer que aqueles que têm uma boa auto-estima (expressão que substitui, com vantagens, “aquele que se ama”) tendem a estabelecer relacionamentos amorosos muito melhores encaixados e bastante mais gratificantes.

Ao pensarmos por esta ótica e se considerarmos como amor apenas este segundo tipo de relacionamento, entre pessoas de temperamento e caráter afins, podemos dizer que ele depende vitalmente de uma boa auto-estima. Como ela é rara, também serão raros os relacionamentos amorosos. Acontece que não me parece razoável pensar assim, já que os relacionamentos entre opostos também implicam em aconchego e intimidade – apesar dos problemas, conflitos, ciúmes e brigas de todos os tipos. Assim, só poderíamos mesmo é afirmar que para sermos muito felizes no amor temos antes que nos entender conosco mesmos. Talvez seja essencial um avanço na capacidade de ficar bem consigo mesmo, de correção daqueles aspectos que não gostamos em nós e do atingimento de um estado de conciliação com nossa forma de ser para que possamos estar verdadeiramente prontos para um relacionamento amoroso no qual as delícias do aconchego possam nos satisfazer plenamente.

Flávio Gikovate

domingo, 13 de novembro de 2011

O que significa, na prática, viver em paz?


Vamos caminhar bem devagar e tratar de pensar um pouco mais sobre cada um destes itens. Somos um animal muito especial, dotado de um sistema nervoso central privilegiado e que foi capaz de ser utilizado de forma sofisticada graças à elaboração da linguagem – que talvez seja nossa mais importante criação. Costumo dizer que nosso cérebro é o “hardware” e que o utilizamos porque fomos capazes de elaborar um “software” competente. Nascemos com o cérebro pronto, mas o “software” foi construído por nossa espécie. É nossa marca registrada, nossa maior conquista, nossa alma. Nos distancia de forma definitiva e radical dos outros animais, apesar de conter inúmeros erros – e não poderia ser diferente, pois foi criada por nós e sem a ajuda de nenhum manual!

Ainda assim, somos parte do reino animal. E nele as reações químicas, os equilíbrios e desequilíbrios entre os líquidos que envolvem as células e o conteúdo delas, as sensações de saciedade, fome e sede, a necessidade de eliminar excrementos, os calores e frios acontecem continuamente. Nos equilibramos e nos desequilibramos em todos estes aspectos da biologia o tempo todo. Vivemos ao redor de um ponto de equilíbrio, de um estado chamado homeostase. Agora, este estado é sempre momentâneo: estamos saciados de comida e bebida (equilíbrio) e logo depois voltamos a sentir sede ou fome (desequilíbrio); nos alimentamos e nos reequilibramos. O mesmo acontece com tudo o que diz respeito ao nosso organismo.

Nosso psiquismo registra, sob a forma de pensamentos e sensações, o que acontece no organismo. Nos sentimos bem por algum tempo e logo surge algum desconforto – desequilíbrio – que nos impulsiona na direção de tentar neutralizá-lo. O equilíbrio se refaz e se desfaz o tempo todo. Nos sentimos bem quando conseguimos passar a maior parte do tempo perto deste ponto de equilíbrio, próximo do ponto que corresponde ao chamado equilíbrio homeostático. Oscilar em torno dele é viver bem e em paz.

Se estivéssemos o tempo todo em paz, talvez nos sentiríamos um tanto entediados. Mas não é necessário nos preocuparmos com isso porque se trata de uma condição que jamais irá acontecer. Na vida real sempre experimentaremos alguns desconfortos. Sentiremos fome e isso é doloroso. Quando conseguirmos ter acesso ao alimento, sentiremos um prazer que deriva do fim desta dor. É interessante reprisar que, em nós, existe uma clara sensação de prazer quando saímos de uma condição negativa para perto do ponto de equilíbrio homeostático. Este é um exemplo do que é chamado de prazer negativo, ou seja, aquele que sentimos durante a transição de uma situação dolorosa para a estabilidade. Os prazeres negativos dependem da presença prévia de alguma dor e acontecem quando voltamos à condição de estar bem.

O prazer negativo mais importante talvez seja a saúde. O sofrimento, a dor, corresponde à doença. Ao nos livrarmos dela, sentimos um enorme prazer que acontece “apenas” porque voltamos ao nosso estado usual. É interessante notar que nosso psiquismo não se ocupa muito daquilo que está indo bem. Desta forma, só damos valor à saúde depois de termos estado doentes, privados dela. Ainda assim, a alegria derivada da reconquista do bem-estar físico dura uns poucos dias. Depois voltamos a achar “normal” ter saúde.

Como temos um psiquismo complexo, podemos sofisticar a resolução dos nossos desconfortos – prazeres negativos – sendo que isso agrega mais prazer – e aí positivo, ou seja, prazer que não está diretamente relacionado com a resolução de um desconforto. No caso da comida, o alimento preparado de uma forma requintada e criativa agrega prazeres positivos à resolução do prazer negativo relacionado com a fome. No caso do vestuário isso é ainda mais evidente: a necessidade de nos protegermos contra as intempéries se transforma em fonte de prazeres eróticos exibicionistas complexos e dos quais me ocuparei adiante.

A resolução dos desconfortos e a capacidade de vivermos próximos do estado de equilíbrio que nosso psiquismo registra como bem-estar depende, em uma sociedade complexa como em que vivemos, do dinheiro. Assim, não acho conveniente desconsiderar a importância dele para que possamos ter um teto legal, comer bem, vestirmos roupas confortáveis e principalmente acesso aos recursos médicos tão essenciais. As dúvidas acerca da importância do dinheiro existem apenas no plano do supérfluo, ou seja, quanto nos faz feliz termos um armário cheio de roupas, termos acesso a locais luxuosamente decorados entre outros exemplos. Pessoalmente penso que o maior problema é que as pessoas não gostam de se sentir por baixo (dor grande relacionada com o que chamamos de humilhação). Quando vivem numa sociedade que valoriza muito estas coisas, aqueles que não as têm se sentem mal. Em outro ambiente, no qual ninguém tivesse tantos bens, talvez a necessidade de possuí-los diminuísse imediatamente. Mas este espaço é pequeno para analisarmos todos os ingredientes relacionados com esta que é uma das questões mais difíceis de serem abordadas.

Flávio Gikovate

domingo, 23 de outubro de 2011

Uma pausa para pensar um pouco sobre o amor


A questão amorosa preocupa mais à maioria do que os aspectos essencialmente relacionados com o sexo. Não creio que isso seja justo, pois o sexo ainda é um grande problema a ser melhor resolvido pelas gerações que estão aí e também pelas que virão.

Aconteceu um fato recente que me fez escrever este pequeno texto sobre o amor. Fui convidado para fazer uma pergunta para Rosa Montero (escritora espanhola que foi entrevistada pelo programa Roda Viva da TV Cultura em 10/4). Perguntei se ela achava razoável pensarmos na existência de um fator anti-amor, um fator interno que torna tão difícil e incomum a realização das histórias de paixão, tema de um dos seus trabalhos mais recentes.

A resposta dela foi de tal forma surpreendente que me fez reconsiderar alguns aspectos relacionados com o que já escrevi sobre o assunto: ela desviou totalmente do assunto e parece não ter entendido minimamente o que eu estava falando (havia tradução simultânea para o espanhol)! Compreendi o quanto a maior parte das pessoas, mesmo as mais esclarecidas, ainda é carente de informações a respeito do tema. Ela dizia que a paixão é um vício, algo que só pode durar uns 2 anos; este é o discurso oficial, nada criativo. Dizia também que depois de superada a paixão, as relações ganhavam aquele aspecto cotidiano um tanto monótono e repetitivo. Ela disse que ela mesma havia se apaixonado várias vezes e que as histórias sempre terminavam assim: quando se sai da fantasia para a realidade, o tédio e a monotonia acabam por predominar.

Em síntese, ela disse que ou vivemos o amor como drogados ou então o vivenciamos como um tédio. Nada pode ser mais tradicional, conservador e depressivo do que estas considerações extraordinariamente reacionárias. Dão a impressão de que não há saída e salvação para a questão do amor a não ser pelo esforço enorme de aceitar e respeitar as diferenças que são inerentes ao fato de que o amor real implica em indivíduos específicos. Não fala sobre que diferenças e, com isso, coloca todas as diferenças no mesmo saco. Não preciso enfatizar o quanto acho isso perigoso, pois é muito diferente estar convivendo com um bandido, com uma pessoa sem caráter e desleal, ou com alguém que gosta de acordar cedo quando gostamos mais de dormir até tarde. Há diferenças e diferenças e colocá-las todas juntas é estimular a idéia de que não devemos levá- las em conta já que terão que existir e teremos que trabalhar muito – ainda que no contexto das relações tediosas – para que consigamos ter algum tipo de afetividade pela pessoa por quem antes tínhamos paixão.

Ela fala que, na paixão, amamos mesmo é o estado que o encantamento pelo outro provoca em nós. É verdade. Diz que não amamos a outra pessoa e que amamos mesmo é o amor! Este é mais um capítulo do discurso oficial, tradicional e vazio. Amamos uma determinada pessoa porque ela provoca em nós uma série de sentimentos e sensações e isso é o que venho afirmando há décadas. Amo aquela pessoa cuja presença provoca em mim a sensação de aconchego, de paz e de bem-estar que eu perdi no momento do nascimento. Amo a pessoa porque ela é capaz de provocar em mim emoções muito agradáveis. É mais que lógico que seja assim. O trágico é que muitas pessoas, depois de encantadas, continuam a amar a pessoa apesar dela provocar dor, humilhações e todo o tipo de insegurança e desconforto. Isso não é mais amor e sim uma dependência mórbida que está desconsiderando os fatos e que torna tantas pessoas reféns de parceiros que não valem a pena. Aí as pessoas falam coisas do tipo: ele é péssimo, mas eu o amo! Isso é que não faz o menor sentido. Temos mesmo que amar a pessoa que nos faz feliz, que provoca em nós grandes e prazerosas sensações.

Enfim, eu que pensava que não haveria necessidade de escrever mais nada a respeito do amor decidi, em virtude deste fato e de tantas observações que tenho lido no meu site a respeito da sexualidade (além das consultas on line onde, é claro, os assuntos relacionados com namoros e casamentos desastrosos predominam largamente), tratar de escrever mais sobre o amor, sobre os caminhos que levam à felicidade sentimental. Não é para já porque outros compromissos e projetos em andamento me exigem muito tempo. Mas acho que em 2007 lançarei um texto bem simples e direto que trate de desfazer todos esses mal entendidos.

Quero muito reafirmar mais uma vez que a paixão corresponde a um encantamento de ótima qualidade entre pessoas parecidas que vivenciam este encontro com muito medo. O medo é parte da paixão e dá a ela o caráter aflitivo e tenso que pode se assemelhar ao vício. Quando o medo se atenua, a relação continua a manter todo o vigor e todo o encantamento próprio das relações baseadas na confiança recíproca, numa intimidade totalmente compartilhada e num clima erótico legal. O medo não é outro senão uma manifestação do que chamo de fator antiamor, presente em todos nós, que está principalmente relacionado com o medo da felicidade. Este é o maior obstáculo à realização amorosa. Como todo medo, só pode ser tratado de uma forma: enfrentando-o com consciência, coragem, determinação e persistência.

Flávio Gikovate

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Aprenda a livrar-se das dores inevitáveis


Afora as dores relacionadas com os desconfortos físicos, existem outras que dizem respeito à nossa condição de seres racionais. Sofremos a perda de pessoas queridas. Nos entristecemos pelos descaminhos vividos por nossa pátria. Nos identificamos e sofremos as dores dos nossos amigos. Nos preocupamos pelo destino dos nossos filhos. As doenças das pessoas que nos são caras doem em nós. Envelhecemos. Adoecemos. Sabemos que vamos morrer. Tudo isso faz parte da tragédia da nossa condição. São dores inevitáveis e seria absurdo imaginar que as pessoas felizes não passam por elas. Aí estaríamos operando no domínio da fantasia, pensando de uma forma quase ridícula. As pessoas felizes são as que aceitam com docilidade as dores inerentes à vida. Ao aceitá-las com mais serenidade, talvez consigam sofrer menos com elas; e por menos tempo. O objetivo é ser capaz de absorver e se livrar delas o mais rapidamente possível. Os dias da nossa vida são poucos e temos que perder o menor tempo possível com os sofrimentos que nos alcançam e sempre nos alcançarão.

Nestes casos, penso que não existem os prazeres negativos relacionados com o fim da dor. Quando conseguimos parar de sofrer pela morte de um ente querido, experimentamos, no máximo, um certo alívio. Isso porque a dor se atenua de forma progressiva e não é substituída por nenhum tipo de satisfação. Aceitar os sofrimentos típicos da vida humana, consciente de sua condição, faz parte daquilo que chamamos de boa tolerância à frustração e contrariedades. Estas são as grandes contrariedades e, é claro, que quem as aceita terá mais facilidade para lidar com as menores, com os pequenos dissabores que nos chegam o tempo todo e de todos os lados. Docilidade e boa tolerância a contrariedades não é sinal de conformismo e fraqueza. Indica bom senso e ciência de que há regalias pelas quais vale a pena lutar e que há situações onde apenas nos cabe aceitar os fatos.

Flávio Gikovate

sábado, 15 de outubro de 2011

Nossas diferenças são maiores do que pensamos


Sei muito bem o quanto as diferenças provocam em nós sensações complexas e contraditórias. Não toleramos bem diferenças de opinião, especialmente as que vêm de pessoas com as quais temos um relacionamento afetivo, condição na qual nos sentimos abandonados, traídos e sozinhos outra vez. Não toleramos conviver com pessoas diferentes porque elas nos fazem sentir ameaçados, com medo. Não conhecendo o modo de ser delas, podemos sempre temer condutas que nos violentem. Tentamos dominar e controlar tudo e todos os que não entendemos justamente para não nos sentirmos nem abandonados e nem ameaçados.

Uma das defesas que lançamos mão diante das diferenças que nos aparecem como tão ameaçadoras consiste em minimizarmos sua magnitude. Ou seja, nosso esforço caminha na direção de considerar a diferença como menor do que ela efetivamente é. Isso é válido para as diferenças de todo o tipo, mas principalmente para as que existem entre homens e mulheres. O próprio Freud teve grande dificuldade em tentar imaginar o feminino de uma forma original. Ou seja, acabou vendo a mulher como um homem desprovido do pênis, um homem a quem falta algo. Achava também que o grande medo dos homens, principalmente em relação às mulheres (medo este que existe mesmo e pode ser muito intenso), era o de ser castrado e ficar como elas. Isso, naquele tempo, aparecia como uma grande desgraça já que a norma que hierarquizava as diferenças era a de que o homem era o superior, o completo, e a mulher, a inferior, mutilada e passiva.

Para qualquer pessoa que não tenha a mente dogmática e que consiga pensar sobre o assunto de uma forma mais livre e compatível com os fatos atuais – incrivelmente diferentes daqueles observados por Freud há 100 anos atrás – sabe que a condição feminina, se for o caso de hierarquizarmos, terá que ser vista como superior e não inferior. Isso aos olhos dos próprios homens que ou as endeusam ou morrem de inveja delas (e por isso agem da forma agressiva própria do machismo). Não acho que seja o caso de seguirmos esta rota cansada e infrutífera de tentar saber quem é o superior e quem é o inferior. Somos suficientemente diferentes para não podermos ser objeto de comparação.

A verdade é que as pequenas diferenças permitem as comparações e as classificações em superior e inferior, melhor e pior, mais isso ou menos isso! As grandes diferenças não permitem sequer a comparação e muito menos a hierarquização. Os muito diferentes são apenas diferentes e pronto.

A mim aparece cada vez de forma mais evidente que homens e mulheres são muito diferentes do ponto de vista de aspectos biológicos essenciais. A diferença de força física, as diferenças na natureza da sexualidade, importância da aparência física, as variações hormonais, a possibilidade de gerar uma criança, definem, junto com enormes diferenças de caráter educacional (hoje em processo de atenuação) determinam o surgimento de dois tipos bastante diferentes de seres humanos.

O mais complexo, a meu ver, é que a própria ideologia igualitária que vem regendo a forma de pensar de homens e mulheres ao longo dos últimos 50 anos, acaba por confundir ainda mais as mulheres. Elas mesmas não sabem mais se devem caminhar na direção de encontrar sua própria identidade ou de se aproximar do modo de ser dos homens. Na prática, o que acontece é que podem existir as 2 possibilidades: mulheres que mantém o padrão de feminilidade tradicional, mais doméstico e prestativo; e mulheres que se dirigem com tudo para o mundo do trabalho, do sucesso profissional e da competição (antes tradicionalmente masculino). É fato também que a sociedade aceita melhor as mulheres que perseguem os ideais masculinos do que os homens que prefiram viver de acordo com o padrão tradicional feminino. Homens que prefiram ficar em casa, cuidando dos afazeres domésticos e das crianças enquanto suas esposas se dedicam ao trabalho continuam a ser mal vistos. Ou seja, o mundo igualitário ainda é o que privilegia o modo de ser masculino: mulheres podem (e em muitos aspectos devem) agir como os homens, enquanto que os homens devem continuar a agir como homens.

A complicação maior é que, diante de tanta confusão de conceitos, fica difícil darmos origem ao processo de entendimento do que seja o verdadeiro feminino. Até hoje só existe o feminino tratado como subalterno, passivo e dependente do masculino; ou então o feminino que trata de imitar o modo de ser masculino. E as mulheres de verdade onde é que estão? Quem são elas? Existem as que sabem responder à pergunta que realmente interessa: afinal, quem são e o que querem as mulheres?

Flávio Gikovate

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Amor versus individualidade


Ao longo do segundo ano de vida a criança vivencia enorme avanço em suas competências: aprende a andar, a formular as primeiras frases, aprimora suas aptidões motoras etc. Se até então seu maior prazer era ficar no colo da mãe, usufruindo da paz e aconchego similar ao que foi perdido com o nascimento e sentindo por ela aquilo que chamamos de amor, agora ela gosta também de circular, especular o ambiente, tentar entender para que servem e como é que funcionam os objetos. Coloca quase tudo que encontra na boca, tenta sentir seu tato, observa o que acontece quando deixa que caiam no chão. Dá sinais de grande satisfação a cada nova descoberta. Está praticando os primeiros atos próprios de sua individualidade – e se deleitando com eles.

Tudo isso acontece na presença da mãe. Sim, porque se ela for para um outro local, a criança imediatamente abandona o que está fazendo e sai em disparada atrás dela. O mesmo acontece se levar um tombo: corre chorando de volta para o colo. Diante da dor física ou da iminência de distanciamento exagerado da mãe, a sensação de desamparo cresce muito rapidamente e aí torna-se absolutamente necessária a reaproximação. Há, pois, uma clara alternância de preferências: estando tudo em ordem, o que a criança quer é exercer os prazeres da sua individualidade em formação; ao menor desconforto, busca no aconchego materno (amor) o remédio para todas as dores.

Não há como não compararmos nossos comportamentos ditos adultos com o que acabei de descrever: queremos exercer nossa individualidade com a máxima liberdade, mas queremos voltar para casa e encontrar o parceiro à nossa espera. Ficamos bem longe da pessoa amada por algum tempo, mas depois o desejo maior é o de nos aconchegarmos; se isso não é possível, sentimos a dor forte correspondente à saudade (mistura de abandono com lembrança do calor que advém da companhia). Temos a nosso favor o benefício de um imaginário mais rico e a capacidade de nos comunicar à distância graças aos recursos tecnológicos: nos sentimos aconchegados, mesmo estando longe, graças às palavras e juras de amor.

No convívio íntimo, parece que queremos mesmo é encontrar uma fórmula capaz de conciliar amor e individualidade: quero, por exemplo, assistir ao programa de TV do meu interesse e quero que minha amada esteja ao meu lado, se possível bem agarradinha. Ela, também interessada no aconchego, poderá tentar achar graça, por exemplo, no jogo de futebol que tanto me encanta. Mas talvez não consiga e aí começam os problemas. Ela se afastará, indo em busca daqueles que são os seus reais interesses individuais. Eu me sentirei rejeitado, abandonado e mal amado; tentarei pressioná-la com o intuito de fazer com que volte. Ela, prejudicada em seus legítimos direitos, se revoltará e a briga (chamada de “briga normal dos casais”) será inevitável.

O homem é, ao mesmo tempo, a criança e a mãe. O mesmo vale para a mulher. Querem exercer sua individualidade, mas sem se afastar muito um do outro. Lutarão pelo poder, para definir quem irá impor o ritmo e a programação. Por maiores que sejam as afinidades, sempre irão existir atividades que são do interesse exclusivo de um dos membros do casal. A fórmula tradicional – homens mandam e mulheres obedecem – não funciona mais (felizmente).

O que fazer? Só há um jeito: o crescimento emocional de ambos para que a dependência típica do amor infantil se atenue. Que cada um consiga se sentir em condições de exercer suas atividades, de modo a liberar o parceiro para fazer o mesmo.

Flávio Gikovate

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O que vale mais: beleza ou dinheiro?


Numa conversa com amigos surgiu este tema e eu achei muito interessante tentar escrever alguma coisa sobre ele, já que são as duas condições que, parece, são as mais cobiçadas pelas pessoas. É claro que não estavam em jogo outras variáveis também muito cobiçadas como a inteligência, a felicidade sentimental, o vigor sexual, a persistência e disciplina para o trabalho, a competência para os esportes ou para a vida social etc. A questão era apenas essa: beleza ou dinheiro?

Não valia também querer ter os 2, porque é óbvio que todos responderiam da mesma forma. Ao longo da minha mocidade, lembro que pensava muito sobre isso quando via uma moça muito bonita no ponto de ônibus. Como é que ela não arrumava um namorado mais bem posto na vida para poder sair daquela situação nada agradável? O fato é que muitas não o faziam e, estimuladas por uma ingenuidade que, penso, está desaparecendo, iam atrás de algum rapaz de suas relações e de condição social semelhante à sua. Não tinham em mente, ao menos de modo claro, que poderiam “trocar” a sua beleza pelo que quisessem. Era isso que estava na minha mente mais atenta à realidade da vida e por isso tinha tanta dificuldade em imaginar que uma moça assim bonita não dava uma solução melhor para sua vida.

O fato é que hoje tenho visto muito menos moças belas e atraentes em pontos de ônibus. Ao mesmo tempo, muitos rapazes, antes displicentes para a aparência física, buscam intensivamente se tornarem protótipos daqueles que seriam cobiçados pelas mulheres mais bonitas ou bem postas. É como se tivessem descoberto todo um modo de se estabelecer socialmente que jamais esteve aberto para os homens, destinados a trabalhar muito e a tentar crescer por força de sua competência para as atividades lucrativas.

Hoje em dia, rapazes e moças, homens e mulheres mais velhos, todo o mundo busca aprimoramentos físicos. Gastam tempo e dinheiro com cremes, cirurgias, tratamentos mais ou menos dolorosos. Fazem de tudo para se embelezar e também para manterem, pelo maior tempo possível, a juventude. É como se estes tivessem se transformado nos nossos maiores valores. São os mais cobiçados, ao que parece.

A vaidade é um elemento da nossa sexualidade relacionado com o exibicionismo. Está presente em todos nós. O que varia é o que pretendemos exibir e como queremos chamar a atenção ou atrair olhares de admiração em direção a nós. Podemos chamar a atenção pela beleza extraordinária. Isso é fácil para quem nasceu assim belo e costuma acomodar a pessoa, que não busca mais nada de muito relevante para si porque já está bem abastecido de gratificações deste tipo exibicionista. As moças, mais que os rapazes, sempre se preocuparam mais que tudo em chamar a atenção pela aparência física mesmo nos casos em que se destacam profissionalmente e têm uma boa condição sócio-econômica. Poucas foram, e são, as que preferem chamar a atenção por outras razões podendo atrair olhares de admiração e desejo por sua aparência física.

Penso que a condição masculina ainda é um tanto confusa e os rapazes, mesmo os que cultivam os músculos várias horas por semana, ainda gostam muito de desfilar com carros que chamem a atenção, o que é uma forma de exibicionismo da vaidade que se exerce pela via indireta. Ou seja, o carro chama a atenção das pessoas e também chama a atenção quem está dentro do carro, quem é o dono dele. Neste caso o dinheiro é que é a principal fonte do exibicionismo. Parece que, afora seu uso para as coisas básicas da vida, o dinheiro está sempre a serviço do exibicionismo. Até há pouco tempo, as moças exibiam a beleza e os rapazes, o dinheiro – deles ou da família – por meio de carros, relógios etc. Hoje as moças estão preocupadas em exibir boa condição financeira, como é exemplo o fascínio que elas têm por bolsas de grife e que todos sabem quanto valem (e muita gente usa as falsas com o objetivo de passar por aquilo que não é). Ao mesmo tempo, os rapazes cultivam ao máximo sua beleza física sem abrir mão, é claro, do exibicionismo material.

Parece que a vaidade se tornou mais exigente e todo o mundo quer chamar a atenção de qualquer jeito e quase sempre pela via da beleza ou do dinheiro. A competição se atiça e não vão bem as relações humanas, nem as de amizade e muito menos as amorosas. Agora, tudo leva a crer que, neste exato momento, a beleza está valendo mais do que o dinheiro – e não é que ele valha pouco. Acho que, com o fim da ingenuidade, todos, rapazes e moças, perceberam que a beleza tem um importante valor de mercado, de modo que acham que, de posse dela, conseguirão o dinheiro. A beleza chega ao dinheiro e nem todo o dinheiro do mundo compra a beleza para si. O dinheiro compra um parceiro – ou parceira – belo, mas não a beleza para si. Assim, o pólo se inverteu pelo fim da ingenuidade. Porém, as peças continuam as mesmas. O que interessa mesmo é beleza e dinheiro.

Flávio Gikovate

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A verdadeira história da relação homem-mulher


Atualmente ainda é grande o número de mulheres que tem uma visão unilateral e, até certo ponto, machista acerca da história das relações íntimas entre homens e mulheres. É fato que os homens sempre foram fisicamente mais fortes e se beneficiaram disso para, antes da vida em sociedade, ter acesso às mulheres que lhes despertavam o desejo. Em sociedade, porém, as escolhas e as parcerias sempre foram regulamentadas. Determinados homens deveriam se casar com determinadas mulheres e as escolhas eram feitas pelos pais deles. Ao homem cabia uma série de deveres e direitos, sendo o mesmo verdadeiro para as mulheres. É fato que os homens tinham seus direitos matrimoniais, o que significava que as mulheres tinham que estar sempre disponíveis sexualmente. Isso só se modificou de muito poucas décadas para cá.

Agora, os casamentos não foram fundados, ao longo da história, em sentimentos amorosos. Quando um homem quisesse ter acesso a qualquer outra mulher que lhe despertasse o interesse sexual ou sentimental, dependia completamente da concordância dela. Ou seja, dentro do casamento ele tinha direitos e deveres e agia como se fosse o rei, o chefe; mas o clima não era de natureza amorosa e sim de associação para fins reprodutores e para, juntos, enfrentarem a adversidade da vida prática. Qualquer vivência de caráter erótico ou sentimental, que sempre acabava por acontecer, dependia dele se fazer interessante aos olhos das mulheres, sendo que estas já eram interessantes porque haviam despertado neles o interesse sexual e/ou sentimental. Dependiam, portanto, da aprovação delas.

Elas iriam admirar e aceitar a aproximação de determinados homens que tivessem as prendas que elas valorizavam. Ou seja, afora o contexto conjugal, o homem sempre foi muito preocupado em agir de uma forma que agradasse às mulheres. Se elas valorizassem os caçadores de grandes animais, era a isso que eles iriam se dedicar. Ao valorizarem os guerreiros, estimulavam os homens para as guerras. Os homens não queriam as guerras e nem as caças. Queriam as mulheres! Os homens sempre quiseram as mulheres e agiram desta ou daquela forma porque achavam que estavam provocando a admiração delas.

É terrível ver a história masculina por este ângulo triste, no qual o masculino sempre se definiu a partir do feminino. É assim até hoje: se as mulheres valorizarem homens simples, sem carro, cultos, poetas e delicados, assim seremos! Se valorizam os carrões, então queremos ter os carrões. Não para ter os carrões e sim para termos acesso às mulheres.

É por este ângulo que estou vendo a questão e é por isso que não posso aceitar com facilidade esta idéia de que as mulheres foram apenas vítimas da opressão masculina, que elas foram pisoteadas e prejudicadas. É fato que eles as afastaram das boas condições de trabalho social (isso quando pensamos na história recente da humanidade e não nos milênios que nos antecedem). Fizeram isso para se defender, para terem o poder econômico com o qual pretendiam neutralizar o poder sensual feminino. É por fraqueza que fizeram o que fizeram. O homem sempre foi o sexo frágil justamente porque sempre quisemos muito (e ainda queremos) ser bem aceitos pelas mulheres.

Quando se ouve os relatos das inseguranças sexuais dos homens mais delicados, daqueles que não são os cafajestes, eles estão sempre preocupadíssimos em não decepcionar as mulheres com quem estão se relacionando. Eles estão o tempo todo preocupados em não fracassarem sexualmente diante daquelas deusas a quem eles atribuem o direito de julgá-los e de avaliá-los como criaturas dignas, como verdadeiros homens. Isto pode inclusive provocar neles tamanha insegurança que os impulsiona na direção daquelas mulheres que eles menos valorizam e que eles acreditam que agradarão com mais facilidade. Assim, muitos homens legais acabam por se afastar das mulheres que eles gostariam de namorar justamente porque não acham que vão ser aceitos por elas, que não vão estar à altura delas nem mesmo no plano sexual.

Ora, isso não é superioridade e nem dominação. É fraqueza e insegurança. Os homens machões, aqueles que precisam depreciar as mulheres o tempo todo, são movidos por inveja. Falam mal de mulher, mas nos carnavais de antigamente eram os que se fantasiavam com roupas femininas! Queriam ser mulheres porque queriam despertar o desejo visual que sentem por elas. Queriam se sentir desejados do mesmo modo que desejam. Toda hostilidade gratuita é manifestação de inveja. Os machões sentem inveja das mulheres. Os melhores homens se sentem inseguros e não se percebem à altura delas. Onde está a tão falada potência masculina, a tão temida superioridade e dominação dos homens sobre as mulheres?

Flávio Gikovate