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domingo, 21 de novembro de 2010

Sempre, de novo, procure a quietude.

“A quietude alimenta, o barulho consome”, disse certa vez Reinhold Schneider. Talvez hoje em dia ansiemos tanto por quietude porque o barulho da atualidade, com sua exigência de ativismo ininterrupto, consuma tanto as nossas energias. A experiência de Reinhold Schneider não é algo novo. Do antigo Egito nos foi legado o seguinte dito: ”Quem se fadiga nunca alcançará a perfeição. Pois, para alcançá-la são necessárias a tranquilidade e a quietude.” E, há mais de 150 anos, o filósofo dinamarquês da religião, Soren Kierkgaard, descreveu o barulho de um mundo que aumenta a cada vez mais como algo que torna as pessoas doentes. “Se fosse um médico - disse ele - prescreveria a seguinte medicação: procurem ficar quietos!” Nosso mundo não se tornou mais quieto nem mais sossegado. Tanto mais necessitamos desta medicação. Somente assim nós podemos concentrar-nos em nós mesmos. Nós nos concentramos em nós mesmos quando nos aquietamos; ao não permitirmos que as influências incômodas externas influam sobre nós. Precisamos da quietude para nos tornarmos nós mesmos, para estarmos plenamente conosco mesmos. Somente assim é possível uma vida digna.
Mas, muitas vezes, nós não encontramos esta paz, que, todavia, depende de nós. A experiência da quietude não é algo que seja natural no mundo em que vivemos. Precisamos fazer algo para encontrá-la e experienciá-la. Experienciá-la ou não está relacionado a certas condições. A primeira condição para aquietar-se é permanecer quieto. Aquietar-se vem de ficar quieto. Quando eu fico quieto surge dentro de mim a fome. Ela, por sua vez, aponta para algo que é fundamental para a vida. A criança com fome necessita da mãe, que a amamenta. A quietude alimenta a alma. Porque não gostamos de sentir a nossa fome interior, aquietamo-nos tão pouco. Sempre estamos em fuga de nós mesmos. É necessária a coragem para ficar quieto, para parar e se confrontar com a própria carência. Mas, se conseguirmos reunir esta coragem, ela será recompensada. Nós nos aquietaremos interiormente. Entraremos em contato conosco mesmos. E sentiremos em nós a fome. Porém, não é uma fome que precisa ser imediatamente saciada com comida e bebida. Muito mais, emerge em nós um anseio profundo, que não é somente fome. “O anseio, assim pensa Arthur Schnitzler, é que alimenta a nossa alma, e não a sua satisfação”. Ao ficarmos quietos, portanto, nós somos nutridos e saciados, não com coisas exteriores, mas pelo próprio anseio. O anseio é algo santo dentro de nós. Ele nos coloca em contato com a riqueza da nossa alma.
No barulho de nosso mundo e de nossos próprios pensamentos, sempre ansiamos pela quietude, por mergulhar a nossa alma no silêncio. Muitas vezes, eu tenho a sensação, após alguma conversação ou alguma palestra, de que minha necessidade de comunicação está completamente satisfeita. Então, eu simplesmente anseio pela quietude. O silêncio não possui interesses; eu não preciso trazer nada e tampouco dar algo. Nele, eu simplesmente posso ser como eu sou. No silêncio eu chego até mim mesmo. Através dele eu alcanço meu próprio coração. E isto faz bem. Um barulho constante faz adoecer. Isto pode ser comprovado por muitos estudos. A quietude faz bem à alma e também ao corpo. Na quietude nós conseguimos nos regenerar.
A quietude age ainda de outra forma: ela purifica e esclarece. Reiteradamente as nossas emoções se confundem com aquelas dos outros. E, demasiadas vezes, nós nos sentimos maculados interiormente. Aí, então, é necessário banhar-se na quietude. Quando eu sentir dentro de mim pensamentos de irritação em relação aos coirmãos ou ainda sentimentos amargos em decorrência de decepções, então, eu preciso de quietude. A quietude limpa aquilo que está turvo dentro de mim. Em um poema chinês faz-se a seguinte pergunta: “Quem consegue ter tamanha quietude, capaz de clarear o que está turvo dentro de si?” O vinho precisa ficar parado para que aquilo que está turvo possa assentar. Assim, também nós precisamos permanecer quietos para que todas as opacidades em nós possam ficar transparentes e o brilho original de nossa alma possa resplandecer novamente.
Na quietude eu me deparo com a minha própria verdade. E esse encontro nem sempre é agradável. Eu somente posso suportá-la se eu parar de me autoavaliar. Se eu simplesmente perceber o que há dentro de mim, então, eu admito a sua existência e posso me reconciliar com isso.
Para mim, pessoalmente, há ainda outra coisa que integra a quietude. Eu apresento aquilo que existe dentro de mim à luz do amor de Deus. Eu não preciso simplesmente suportá-lo. Eu o contemplo à luz do amor de Deus. E, diante dessa luz, isso tudo adquire outro aspecto, pois está envolto no amor de Deus. Isso pode existir assim como é. Porém, através do amor de Deus e através do meu próprio olhar benévolo, isto se transformará, perderá o seu aspecto ameaçador – e, mesmo que o seja, não terá poder algum sobre mim. No encontro com Deus, que me aceita incondicionalmente, eu consigo suportar o silêncio. Se eu somente fosse confrontado sem misericórdia nenhuma comigo mesmo, procuraria uma fuga. Tornar-se-ia difícil aguentar o silêncio.
A quietude é, ao mesmo tempo, para mim, o lugar da experiência mais profunda de Deus. Na quietude eu paro de ficar filosofando sobre Deus ou de tentar fazer uma ideia sobre Ele. Eu simplesmente estou aí diante de Deus, sentado em sua presença e envolto por sua proximidade criativa e amorosa. Na quietude sinto-me plenamente amado.
Eu faço diferentes tipos de experiências no silêncio. Às vezes, tenho a sensação de que Deus me olha e, sob seu olhar, eu posso ser assim como sou. Outras vezes, eu não vejo Deus como outro alguém. Eu simplesmente me sinto uno comigo mesmo. E nessa unidade, simultaneamente, eu me sinto em uníssono com tudo o que existe, um com a criação, um com as demais pessoas e um com o fundamento original de todo o ser, ou seja, com Deus. Nesta experiência de união o tempo para. O tempo e a eternidade se fundem. Ali Deus e o ser humano se tornam um. Céu e terra se conectam.
Na quietude tornam-se possíveis momentos profundos de felicidade. Mas eu não posso retê-los. Eles sempre podem ser sentidos somente por um breve momento. Pois, imediatamente, no instante seguinte, eu já estarei em outro lugar. Então, mesmo que externamente possa continuar tudo quieto, em minha mente os meus pensamentos voltam a fazer barulho. Aí, então, é necessária a disciplina para não fugir, mas para ficar sentado imóvel. Somente quando eu for capaz de aguentar o barulho interior da quietude, então, ele pode novamente amainar. Ou, então, eu imagino o seguinte: os pensamentos são como ondas, que revolvem a superfície do mar. Quanto mais eu submergir em sua profundidade tanto mais quieto irá ficar. Os japoneses imaginam isso ainda de outra maneira. Eu estou sentado aí, como a montanha sagrada Fujiyama. Os ventos e as tempestades, as nuvens e as enxurradas vêm e novamente se vão. Mas, a montanha continua inerte e não se deixa tirar do sério por conta disso.
Eu não preciso produzir a quietude. Ela já se encontra aí. Quando eu passeio pelas florestas, distantes das rodovias, o silêncio me envolve, só preciso percebê-lo. Então, ele me envolve de maneira curativa e também aquietará a minha alma.
Mas, a quietude não é somente algo exterior. Ela também está dentro de mim. Os místicos estão convencidos de que dentro de nós há um espaço de quietude, no qual reside Deus. Nós não precisamos produzir a quietude, ela está em nós. Mas, nós, muitas vezes estamos dissociados dela. Por isso, é bom descobrir, pela quietude exterior, o espaço de silêncio dentro de si mesmo e recolher-se a ele. Para este espaço de quietude as pessoas não conseguem avançar levando consigo suas expectativas e exigências, seus juízos e avaliações. Lá ninguém pode me machucar. Até mesmos meus próprios pensamentos e sentimentos, meus medos, minhas preocupações, minha autodesvalorização e autocondenação, não têm acesso a este espaço de quietude.
Os monges chamam a este espaço do silêncio de santo. É algo sobre o qual o mundo não tem poder. A palavra grega para santo, hagios, remete à expressão alemã gehege, ou seja, cerca. Aquilo que é destacado do mundo é o que está cercado. E lá eu me sinto bem. No espaço santo da quietude eu consigo conviver bem comigo mesmo. Lá eu estou em casa; lá eu experiencio meu lar interior. A palavra alemã heim origina-se de “deitar, acampar, abrigar-se”. Onde eu estou envolto pelo mistério de Deus, lá eu estou em casa, lá eu posso acampar em segurança, lá eu estou abrigado. Assim, a quietude também é algo curativo. Ela me põe em contato com o mistério de Deus e com o mistério da minha vida e do meu self. E ela me conduz ao espaço no qual eu estou são e inteiro, íntegro e puro, imaculado e sem nódoas, autêntico e original, onde a glória de Deus resplandece em mim. Aqui se encontra o lugar da verdadeira felicidade.

Anselm Grün (monge beneditino)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Poder do Silêncio

Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos...

Aprenda com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, a evitar reclamações vazias e sem sentido...

Aprenda com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido...

Aprenda com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores...

Aprenda com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo.

Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar. Como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa.

Aprenda com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar em você as qualidades que você possui, equilibrar os defeitos que você tem e sabe que precisa corrigir, e enxergar aqueles que você ainda não descobriu.
Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares...

Aprenda com o silêncio a respeitar o seu "eu", a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é o seu corpo, e o Santuário que é a sua vida.

Aprenda hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar...

Na natureza tudo acontece com poder e silêncio, com um silêncio poderoso; por vezes, o silêncio é confundido com fraqueza, apatia ou indiferença.

Pensa-se que a pessoa portadora dessa virtude está impedida de reclamar seus direitos e deve tolerar com passividade todos os abusos.

Acredita-se que o silêncio não combina com o poder, pois este tem-se confundido com prepotência e violência.

Sempre que a palavra poder lhe vier à mente, lembre-se do Sol que nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela sem a quebrar. Acaricia as pétalas de uma rosa sem a ferir, e beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar; vamos encontrar na natureza lições preciosas a nos dizer que o verdadeiro poder anda de mãos dadas com a quietude.

As estrelas e galáxias descrevem as suas órbitas com estupenda velocidade pelas vias inexploradas do cosmos, mas nunca deram sinal da sua presença pelo mais leve ruído.

O oxigênio, poderoso mantenedor da vida, penetra em nossos pulmões, circula discreto pelo nosso corpo, e nem lhe notamos a presença.

A luz, a vida e o espírito, os maiores poderes do universo, atuam com a suavidade de uma aparente ausência.

Como nos domínios da natureza, o verdadeiro poder do homem não consiste em atos de violência física. Quando um homem conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência. A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder. Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência.

Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que a maioria dos homens nem percebe a Sua ação.

Essa poderosa força, na qual todos estamos mergulhados, mantém o Universo em movimento, faz pulsar o coração dos pássaros, dos bandidos e dos homens de bem, na mais perfeita leveza.

Até mesmo a morte chega de mansinho e, como hábil cirurgiã, rompe os laços que prendem a alma ao corpo, libertando-a do cativeiro físico.

O verdadeiro poder chega: sem ruído, sem alarde e sem violência.

"Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra". "Boa Terra em teus pés, Água o bastante em tua semente, bom Vento para o teu sopro, Fogo em teu coração e muito Amor em teu ser.”

"O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência no que fizer."

E em respeito a você, eu me calo, me silencio, para que você possa ouvir o seu interior que quer lhe falar, desejar-lhe uma vida vitoriosa.
Jean Yves Leloup