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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Se o tempo acaba com o mistério do relacionamento, o tédio toma conta.

No amor, tempo de convivência não tem nada a ver com conhecimento do parceiro. Pelo menos foi o que revelou uma pesquisa feita por universidades da Suíça, da Alemanha e dos Estados Unidos: ao responder sobre os gostos de suas caras-metades - sobre comida, filmes ou móveis de cozinha, entre outras coisas -, casais com idade entre 68 e 72 anos que viviam juntos havia muito tempo levaram uma goleada de pombinhos com 19 a 32 anos, recentemente unidos. Os jovens mostraram saber mais sobre as preferências e o temperamento de seu amor! Como explicar este mistério que aparentemente contraria a velha lógica de que o tempo fortalece a intimidade?

A verdade é que às vezes a convivência escreve outro roteiro. Em vez de ajudar a afinar a sintonia entre os parceiros, acaba por afastá-los, a ponto de jogá-los em uma quase indiferença. No limite extremo, convertem-se em estranhos na mesma casa, sombras ou fantasmas do que já foram um para o outro.

Não é apenas uma questão de idade ou de diminuição da sensualidade: essa relação inversamente proporcional entre tempo de vida em comum e conhecimento do outro, esse desinteresse crescente, acontece também com casais que estão juntos por poucos anos ou mesmo por alguns meses. Abram o olho!

Uma das razões para o fenômeno, segundo a publicação americana Journal of Consumer Psychology, é uma espécie de reação darwiniana errônea: quem está em uma relação há mais tempo sente que o vínculo já foi fortemente estabelecido e deixa de prestar tanta atenção ao outro. Já os que estão começando a conviver sentem que ainda precisam lutar para cimentar o vínculo - e por isso ficam atentos às preferências, sentimentos e reações do outro.

O erro está em não levarem em conta que a "luta pela sobrevivência" de um casal é interminável, caso contrário descamba para o conformismo, a inércia e a acomodação. Não há casal que consiga manter o interesse recíproco se as partes seguem sendo clones de si mesmas para o resto da vida, se não se oxigenam com novos interesses ou desafios, nem trazem para a relação a ideia de que "a gente não quer só comida", como diz a canção dos Titãs. Para além da imprescindível constância inerente à vida, a repetição monótona e interminável é a mãe dos desânimos. Com o tempo, ela alimenta o tédio, que culmina na indiferença.

Mas este é apenas um lado da questão. Independentemente do tempo de convívio, será que podemos realmente conhecer o outro? Há um paradoxo instigante na relação a dois: o outro, por mais conhecido e confiável que seja, sempre fica a nos dever, pois escapa de ser completamente apreendido. Ainda bem! Aliás, nós mesmos não sabemos direito o que vamos fazer ou pensar amanhã, há sempre um desconhecido, algo improvável a acontecer. Então, há uma tensão básica entre conhecer e não conhecer o outro, porque, se for diferente, ele não será ele, e sim nós misturados com ele, ou projetados nele.

Fazer parte de um casal implica essa contínua tensão, pois viver um vínculo é diferente de estar em fusão - ou em confusão -, misturado com outro, como se ele fosse uma extensão da gente. Nossa cara-metade deve e não deve coincidir com o que esperamos dela, não sendo inteiramente coerente com as vãs expectativas que mantemos de que tudo se passe conforme nossa lógica e desejo.

Paulo Sternick (psicanalista no Rio de Janeiro)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Passagem

A morte nada mais é do que uma passagem.
A passagem de um mundo que conhecemos bem, para outro totalmente desconhecido.
E, por isso, amedronta e traz dor...
Essa era a sensação de dois fetos gêmeos dentro do útero da mãe, que percebiam que chegava a hora de nascer.
Um perguntou ao outro:
- E aí, você acredita na vida após o parto?
E o irmão respondeu:
- Não, ninguém voltou para contar.
Nascer, para eles, seria passar de um mundo conhecido para o desconhecido...
Aquele mundo imenso fora dos limites do útero materno.
Quantas vezes nós também olhamos para a nossa vida com a mesma limitação?
Pois igual aos fetos, cremos que o mundo se reduz ao que conhecemos, ao que nos parece familiar, ao que podemos perceber com os nossos sentidos.
Os dois gêmeos, estavam familiarizados com o quentinho da bolsa, as batidas do coração da mãe e o alimento que chegavam fácil por um tubo...
Assustados, conversavam sobre aquele momento traumático.
Como seria o mundo lá fora?
Escuro?
Frio?
Ameaçador?
Estavam prestes a ser expelidos daquela penumbra repousante para um mundo de luz, cores, cheiros e ruídos...
Eles sentiam medo de sair dali...
As contrações começaram, o mundo em torno se fechava e eles estavam sendo forçados de lá para fora.
Ao nascer, o impacto dos pulmões se enchendo de ar pela primeira vez causou um impacto tão violento que até a memória da vida intra-uterina se extinguiu...
E o que eles tinham a frente era nada mais do que a vida...
A vida num mundo, até então desconhecido onde eles iriam crescer, se formar, ter descendentes, envelhecer e novamente se preparar para uma nova passagem...
Por isso, os monges beneditinos jamais falam de morte e sim de passagem.
Passamos por esta vida, como um grande presente de amor que Deus nos deu...
Nosso nascimento, "o nascimento desses fetos", certamente trará muita felicidade e amor aos seus pais e, vendo assim, como uma passagem, podemos imaginar que o que nos espera, na outra etapa, na outra passagem...
É algo muito melhor.
Nada mais natural que a morte! E, tenho certeza que um dia todos nos encontraremos:
A vida é um mistério maravilhoso!

domingo, 18 de julho de 2010

Escolha

Não embarquei naquela conversa
Que prometia me levar ao outro lado do mundo
Preferi navegar por conta própria
Arriscar-me nos oceanos
Atravessar minhas próprias fronteiras
Até pisar no terreno desconhecido de mim mesma
E ser continente.
Norma Facchinetti

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Soneto

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso;
Quem o contrário diz não seja crido:
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens e inda aos deuses odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís de Camões